Memórias de WrestleMania: por @Gustapool

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Daniel Bryan vs Batista vs Randy Orton – Wrestlemania 30 – “O Milagre na Bourbon Street”

“A Terra de Gigantes”. A WWE foi por um longo período de tempo proclamada por este nome por uma razão, trazendo desde os primórdios de minha trajetória, aquela já muito contada e recontada versão de princípio de trajetória contada por um fã de wrestling brasileiro: época do SBT. Pequeno Gusta, sempre um garotinho pequeno, de 10 anos de idade, pivete que queria ser algo grande no mundo e imitar astros de televisão, assistia algo nas telas e imediatamente fingia ser aquilo. Tempos diferentes, tempos acompanhados por uma ótica da infância que em seus prós e contras trazem diferentes pontos de vista.

O meu primeiro contato com o wrestling, regado de euforia e ao mesmo tempo encantamento ao ver cada golpe e personagens maiores que a vida, me levou de carona á uma análise comum da época: caras grandes, personagens gritantes, golpes estrondosos em sua estética e aplicação, nada sofisticado mesmo comparado com o cenário atual. Mas afinal, isso importa aos olhos de uma criança? Tarde demais, eu já estava fascinado. Não poderia nem ao menos me dar ao luxo de pensar fora da caixa e de me identificar com o que via pois era um mundo ainda muito abstrato e distante pra mim, pois o que tinha diante de mim era Undertaker dominando, John Cena fazendo sua marca.

O máximo que via para possível comparação era Rey Mysterio, ele estava ali, pequeno e ágil, como um super herói vivo das telas, mas ainda assim faltava algo que eu não sabia explicar, eu não me via nele e sim via um super herói vivo, mesmo assim já era mais que o suficiente pra eu querer mais dessa coisa louca da Luta-Livre. Fora isso, apenas minha paixão à primeira vista: a cena que acompanhei pela TV da casa de minha vó: Jeff Hardy pulando de uma altura imensurável em cima de Randy Orton em um ‘Voo do Anjo, o que sem me dar conta seria minha primeira tentativa de emular o que tivera visto apenas uma semana depois no sofá de casa, eu era um superstar (um superstar machucado, não tentem isso em casa crianças).

O meu ponto é: representação. Representação que na época para mim era distante, uma por não saber do conceito da própria palavra, outra pelo wrestling ainda ser um mundo distante tanto na realidade quanto nas telas. Ainda mais para mim que inconscientemente já tinha feito minha escolha: Eu queria ser um pro-wrestler.

Pois se fez ainda mais distante quando percebo que aquele programa no qual me cativou tanto parou de ser exibido, passei então a ver o que podia, por Lan Houses e internet na casa de amigos e parentes, distanciado daquilo, mas sempre com o conceito, no fundo de minha cabeça, de como o wrestling me chamou a atenção. Por essa época, enquanto o SBT foi responsável pela ascenção e queda, quase relâmpago da transmissão do que seria o gostinho único, por um bom tempo, de Wrestling no Brasil, um tal Bryan Danielson já tinha nome consagrado pelo Wrestling independente.

Tão inocente era o pequeno eu, mal sabia que essa pequena bolha de entretenimento estranho na qual eu consumia era na verdade um mundo, e que nesse mundo existia um Dragão Americano que cuspia fogo de paixão pelo que fazia entre as cordas e incendiava ringues ao redor do mundo antes mesmo de colocar os pés na WWE. Difícil saber pra mim, afinal mal sabia da WWE quem dirá um universo independente o cercando. Foi apenas em 2012 quando joguei WWE Smackdown vs RAW 2011 pela primeira vez e vi que se tratava do que tivera visto lá em 2008, junto ao fato de ter conseguido ter acesso á internet fixa em casa, pesquisando sobre o que era, que pronto, não teve mais volta: começava ali não só uma paixão, mas um estilo de vida. Todas as peças se encaixaram, era o começo da minha jornada.

2012: o ano que voltei a assistir WWE sem um ídolo fixo, a tal terra de gigantes não levava mais isso como uma regra, mas ainda eram raras as exceções nesta época, pelo menos as consistentes. Bryan Danielson, transformado em Daniel Bryan, já havia sentido o gosto de uma vitória de título mundial, mas após a Wrestlemania daquele ano, após os famosos 18 segundos, que a história começou á ser escrita. Foi tanto barulho da internet que me vi obrigado á pesquisar o porque de tanta revolta após o chute do Sheamus e a devastadora derrota de Daniel Bryan, aquele cara que até mesmo pra mim, um cara que sempre buscou algo diferente e exótico no wrestling, não me chamava a atenção.

Meus amigos, bastaram uns cliques e algumas pesquisas pra eu então entender o que eu estava perdendo: Daniel Bryan era um artista em seu campo, saía os gigantes e entrava Daniel Bryan, saía os golpes explosivos e entrava a sutileza e inteligência de cada movimento que Bryan fazia no primeiro vídeo de Top Moves do Youtube que vi do mesmo, foi impactante, pra dizer o mínimo.

Foi uma incrível coincidência eu ter conhecido Bryan na mesma época na qual eu entrei na internet de vez, por conseguir presenciar o barulho que aos poucos ecoava dos primeiros passos do Yes Movement, cada voz que foi soada pelas arenas, contrariando o que, muitas vezes ouvi ao longo da vida, que era pequeno demais pra isso ou que não era o escolhido pra tal coisa, me senti o próprio B+ Player refletido em Daniel Bryan. 2013 á 2014 foi uma montanha russa na carreira de Daniel Bryan, o que se fez da minha oportunidade de pesquisar cada vez mais sobre o que era este mundo e me integrar na famosa IWC, que já desde então já era chorona, e as lágrimas deixavam gosto de Daniel Bryan na boca, não havia nada que eles quisessem mais do que ver o ‘cara de Bode’ ter sucesso.

A WWE fez um bom trabalho em fazer com que pensássemos que era o plano o tempo todo, mesmo nunca tendo confiado no baixinho barbudo como campeão desde o princípio.

Eu talvez não deveria ter virado tão fã do Bryan como virei, e se dependesse da WWE, nem mesmo você teria.

A história era simples: Bryan já tivera seu momento feliz, agora era a hora dos escolhidos da WWE: Batista, o grande ator de filmes de Hollywood em ascensão e obviamente com sua marca na WWE já consagrada, e Randy Orton, o nome já disse tudo. Não tinha espaço pra Bryan aqui, isso se ele não tivesse ocupado já o espaço que precisava nos nossos corações pra que toda a gritaria no Road To Wrestlemania 30 o fizessem estar na estrada pro estrelato. Após todo o Barulho Bryan conseguiu: ele tinha a match pelo WWE World Title na Wrestlemania, com uma condição….

Wrestlemania 30, Daniel Bryan, já bate de cara em um muro de tijolos chamado Triple H: a sua pedra no sapato em cada passo que Bryan dava em direção ao título da WWE.

E nesta direção Bryan ainda caminhou, e nem mesmo a já gasta repetição de formato de autoridade vs lutador machucou o caminho de Bryan, pelo contrário, nos deu um rebelde que desde os tempos de Stone Cold não víamos: não um Badass que batia no chefe e que era frio, mas um vulnerável assim como nós que buscava provar que era suficiente, isto no estilo de wrestling necessário pra época que só vinha em ganhando força. e é aí que a questão da representatividade que já comentei entra em ação.

Daniel Bryan derrubou HHH, o primeiro muro que separava Daniel Bryan de seus sonhos foi derrubado, mas ele ainda tinha uma fortaleza pra enfrentar: a própria preparada pela WWE, o BlockBuster comercial que faria sucesso fora da caixa de pensamento de qualquer fã fiel do Wrestling puro: Batista vs Randy Orton.

Mas lá estava Bryan: título da WWE, Batista, Randy Orton. Daniel parecia um peixe fora dágua, mas os fãs se recusavam a ver este mesmo peixe nadar tanto pra morrer na praia, não naquela noite.

Estamos falando de uma noite em que a streak de Undertaker foi quebrada, junto dela, milhares de corações também se espalharam pela arena quebrados, mas todos colados e unidos pela esperança de ver Bryan triunfar.

E à moda antiga na qual fãs birrentos se perdem no espetáculo e até mesmo esquecem do que estavam reclamando, a Triple Threat foi um show, quase suficiente pra fazer a plateia ficar amigável com Randy e Batista, como se esquecessem que os dois seguravam os pés de seu ídolo na caminhada ao WWE Title.

Batista parecia em casa de novo, agora, ciente de seu papel na história durante a match, e a WWE finalmente entendeu o que ele estava ali pra fazer: ser o babaca que veio pra destruir o conto de fadas dos fãs. Orton cumpriu bem seu papel também, sendo o cético homem que só queria caminhar pra fora da Arena da Wrestlemania 30 como ainda campeão.

Mas Bryan lutou, mesmo machucado e com todo o histórico de dúvidas no qual carregou não só no ringue mas em direção a ele, aos poucos flashbacks na minha cabeça, o jovem aprendiz de wrestling independente e na cabeça de milhares de fãs old school do wrestling independente, que estava começando á virar a tendência, vibravam em uma só tensão. Ver o ciclo se cumprir. Conseguir ver diante dos próprios olhos que a trajetória de wrestling tanto dos fã,s via representatividade, quanto dos wrestlers, via julgamento de sua trajetória, poderiam se cruzar e formar o caminho mais perfeito de conexão de fã e lutador, uma conexão na forma de se contar uma história no ringue de forma mais singela e ao mesmo tempo complexa.

Mas, assim que Batista acertou Randy com um Batista Bomb e o tirou do ringue, os fãs esperançosos se fizeram apreensivos, a dúvida preenchia seus corações se a WWE teria este sangue frio, e eles sabiam que ela podia, se ele se virasse para Daniel Bryan talvez teria o que caminho livre para mais um pesadelo para os fãs, apenas pra que essas dúvidas darem espaço pra uma joelhada de Daniel Bryan em Batista e assim como os fãs agarraram firmes em sua premissa de ver Bryan se sagrar campeão, Bryan segurou Batista firme em um Yes Lock, e a Arena parou por alguns segundos, eu mesmo senti como se o mundo parasse de girar por alguns segundos, e vivesse em um paralelo de possibilidades que se misturava com as esperanças dos fãs, das possibilidades e pensamentos dos bons e maus momentos no qual Bryan teve em sua trajetória até ali, e em uma explosão não só de um tremendo pop da plateia ao vivo mas para uma explosão de alegria no coração de cada um do Yes movement, Batista batia na lona e Daniel Bryan finalmente se tornava campeão da WWE.

Até mesmo Michael Cole se destacou em sua chamada no comentário com os eufóricos: “TAP OUT BATISTA!” “TAP OUT BATISTA!” e “A MIRACLE ON BOURBON STREET!” em uma de suas performances mais naturais e marcantes dos seus comentários.

O confete descia e Daniel Bryan erguia os Títulos em suas mãos, a plateia vibrava e por uma noite, por um momento, tudo fazia sentido. Daniel Bryan era a realidade na qual eu me referia em 2008, a ética de trabalho, era o super herói no qual eu pensei ser tão distante, era tudo isso materializado no grito uníssono de “Yes!” de milhares de pessoas na arena e em casa naquela noite.

Analisando hoje por uma perspectiva a representatividade só se sagrou na WWE na era moderna após este momento, a Terra de gigantes desabava, e a bandeira do talento e trabalho duro lentamente era erguida.

Era o sinal que muitos, incluindo eu, hoje pro-wrestler em treinamento, precisava pra ter o ponto de vista do wrestling e do mundo: Não importa seu tamanho, ou o tamanho do que você sonha, porque você é do tamanho dos seus sonhos.

E assim eu encerro este artigo sobre o que, pra mim, digo sem medo, o momento mais definitivo, e maior Wrestlemania Moment de todos os tempos.

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