Memórias de WrestleMania: por Menino Tanaka do Rádio de Pilhadriver

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Você não é de fã de Wrestling profissional até o momento em que assiste uma WrestleMania. Este evento que chega no final de semana ao seu 35º ano de realização é o melhor momento de aceitação da nossa arte em um contexto sociocultural. É um show feito para que todos possam assistir com a família, com os amigos, com qualquer um, porque realmente é um show e não há nada mais que um ser humano goste do que um grande espetáculo diante de seus olhos. É a melhor oportunidade para batizar alguém como fã do entretenimento esportivo.

A iniciativa do WWE RS, mais especificamente do nosso amigo Nicolas, de resgatar as memórias de nomes influentes da comunidade é formidável. A WrestleMania é uma grande produtora de signos, de momentos universalmente recordados. Todo mundo lembra de uma grande estreia, de uma derrota marcante, de algo que a empresa quer que nós lembremos como definição da história. Independentemente disso, todos que já escreveram aqui antes de mim e todos que irão escrever depois só acham que algo vale ser recordado por uma questão pessoal. Para que algo possa ser universalmente aceito, precisa conter o máximo de pessoalidade presente. Quem dizia isso era Dostoievski, considerado um dos maiores pensadores da história da humanidade.

Existe um conceito trabalhado pelo historiador da arte alemão Ady Warburg conhecido como Nachleben, palavra que com alguma resistência de intelectuais é traduzida como sobrevivência pelo filósofo francês Georges Didi-Huberman. A sobrevivência das imagens está incutida em memórias inconscientes que surgem subitamente em momentos inesperados. Quando me foi levantada a ideia de tratar de Memórias da WrestleMania, a imagem que me veio à mente imediatamente foi a de Triple H, Shawn Michaels e Undertaker abraçados, simbolizando o que seria um suposto fim de uma era na WrestleMania 28.

À luz da atualidade, este momento pode não ter o mesmo significado que teve naquele exato dia 1º de abril, mas as memórias não seguem uma ordem cronológica e nem uma ordem que pode ser explicada por nós, meros mortais. Como imagem, o fim de uma era foi o momento perfeito dentro da estética. Undertaker conquistava sua vigésima vitória, arredondando seu recorde em Wrestlemanias. Isso culminaria no afastamento dos holofotes de três dos principais nomes das duas décadas anteriores em caráter definitivo.

O trabalho de fotografia da equipe de filmagem foi espetacular. A reação a cada Kickout, as sobreposições de imagens, os enquadramentos que mostravam as lendas encurraladas na cela. Não importa se você estava vendo Wrestling há 60 minutos ou 60 anos, aquilo gerou emoções em quem assistia. E o Wrestling é ter essa capacidade de mover as reações das multidões para lá ou para cá, sempre tendendo a parar no êxtase, como a agulha de uma bússola que sempre aponta para o Norte. Um verdadeiro encantamento causado pela maneira de se contar uma história.

O que há de pessoal dentro da universalidade deste combate é uma história que beira o sobrenatural. Em 2012, minha conexão com a internet era absolutamente ridícula comparada ao que é hoje. Tendo começado a acompanhar fielmente a WWE no final de 2011 – sem conseguir assistir ao vivo, claro – tentei me aventurar para assistir a WrestleMania 28. Eu não obtive sucesso durante o show e acompanhei boa parte através dos portais que cobriam em forma de texto. Até que, em uma última tentativa desesperada, encontrei um site de procedência duvidosa que estava transmitindo o evento. Ia começar o fim de uma era. Vi limpo, sem travamentos. Eu assisti entradas, a luta, o pós-luta. Tudo isso da maneira mais fluída possível.

Eu pulava, eu gritava, eu via a história se construir diante dos meus olhos de maneira inexplicável. Eu não queria que o Undertaker perdesse e, depois do final do combate, eu não queria mais ver nenhum dos três aparecendo na televisão. A nostalgia não-vivida é um fenômeno curioso, mas mesmo que eu não tenha presenciado o auge de nenhum dos três, eu sentia que eles tiveram um auge e quão significativos eles foram universalmente. Eles me contaram isso dentro do ringue sem dizer uma palavra. Eu sabia que eles foram gigantes, mas o que importava é que, naquele dia, para mim e para tantos, eles eram importantíssimos.

Pessoalmente, eles me fizeram um fã assíduo sem entregar o melhor de suas performances. Aquele era o encerramento esteticamente perfeito para uma Memória de Wrestlemania se não houvesse um amanhã que contrariasse o que vimos. Mas de que importa? No controle de nossas memórias não precisamos seguir uma cronologia e nem a lógica hollywoodiana do “y depois de x para gerar um pensamento z”. Eu prefiro o meu final da história. Eu prefiro a minha memória.

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